Mais de 50% das crianças brasileiras dormem menos do que o recomendado para sua idade, segundo estudos da Faculdade de Saúde Pública da USP. Esse dado representa um alerta real. Crianças de 5 a 7 anos que dormem menos de seis horas por noite enfrentam maior risco de problemas cognitivos, dificuldades comportamentais e até doenças cardiovasculares e obesidade. Durante o sono noturno, o organismo infantil restaura processos bioquímicos e hormonais essenciais. Quando se dorme pouco ou demais, todo o relógio biológico é afetado, comprometendo desenvolvimento físico, emocional e cognitivo.

A privação de sono produz sintomas que muitas vezes confundem pais e educadores. Crianças que não descansam adequadamente apresentam irritabilidade excessiva, hiperatividade e dificuldade de concentração. Em alguns casos, esses sinais são confundidos com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. O desempenho escolar também sofre. Memória comprometida, raciocínio mais lento e sonolência durante as aulas impedem que a criança aproveite o ambiente escolar plenamente.

“O sono prepara o cérebro para o aprendizado do dia seguinte. Sem descanso adequado, a consolidação da memória não acontece e tudo o que foi ensinado se perde”, explicam educadores do Colégio Senemby, em Caieiras (SP). Pesquisas confirmam essa relação direta: crianças com padrão regular de sono apresentam melhor desempenho acadêmico, maior capacidade de resolver problemas e mais facilidade para reter informações.


Primeiros anos: quando o sono sustenta o crescimento

Recém-nascidos de 0 a 3 meses precisam de 14 a 17 horas de sono por dia, incluindo cochilos. Nessa fase, os ciclos de sono são curtos e irregulares, alternando períodos breves de vigília com sonos mais longos. Entre 4 e 11 meses, a necessidade cai para 12 a 16 horas diárias. É quando muitos bebês começam a desenvolver um padrão mais regular, com sono noturno mais contínuo e sonecas durante o dia. Durante o primeiro ano de vida, o sono se divide de forma equilibrada entre os estágios REM e NREM. O estágio REM é o mais profundo, quando ocorrem os sonhos, enquanto o NREM é responsável pela oxigenação muscular e liberação hormonal.

Crianças de 1 a 2 anos devem dormir de 11 a 14 horas por dia. Mesmo quando alguns cochilos diurnos começam a diminuir, o sono noturno permanece essencial para o desenvolvimento. Entre 3 e 5 anos, a recomendação é de 10 a 13 horas diárias. Nessa faixa etária, o sono NREM passa a dominar os ciclos, já que é durante esse estágio que ocorre a oxigenação muscular necessária ao crescimento e a liberação de hormônios fundamentais para o desenvolvimento físico.


Idade escolar: consolidando o aprendizado

Dos 6 aos 12 anos, crianças precisam de 9 a 12 horas de sono por noite, segundo a American Academy of Sleep Medicine. Esse período coincide com a fase de maior carga escolar e introdução de atividades extracurriculares. A tentação de permitir que a criança durma menos para caber mais compromissos na agenda é real, mas compromete diretamente o desempenho acadêmico.

Durante o sono, o cérebro reorganiza e armazena as informações adquiridas durante o dia. Esse processo fortalece as conexões sinápticas e melhora a retenção de conteúdos. Crianças que dormem adequadamente chegam à escola mais atentas, participam melhor das aulas e mostram maior facilidade para aprender conceitos novos. A fadiga crônica, por outro lado, reduz concentração, piora o humor e aumenta a probabilidade de acidentes.


Adolescência: mudanças no relógio biológico

Adolescentes de 13 a 18 anos precisam de 8 a 10 horas de sono por noite. Muitos não alcançam essa meta por causa de carga escolar excessiva, atividades extracurriculares, uso de eletrônicos e mudanças hormonais próprias da idade. A produção de melatonina, hormônio que regula o sono, tende a acontecer mais tarde nos adolescentes, o que explica por que muitos se sentem mais dispostos à noite e têm dificuldade para acordar cedo.

“Adolescentes enfrentam pressão acadêmica intensa e ainda lidam com transformações físicas e emocionais. O sono de qualidade não é luxo, é necessidade biológica para que consigam atravessar essa fase com saúde mental preservada”, ressaltam os educadores do colégio. Déficit de sono nessa idade está associado a maior risco de depressão, ansiedade e até pensamentos suicidas, além de comprometer aprendizado e memória.


Criando ambiente e rotina favoráveis

Horários regulares para dormir e acordar ajudam a regular o relógio biológico. Mesmo aos fins de semana, as variações não devem ultrapassar uma ou duas horas em relação aos dias de aula. Atividades relaxantes antes de dormir, como banho morno e leitura, sinalizam ao corpo que é hora de desacelerar. O quarto deve ser escuro, silencioso e com temperatura agradável. Para crianças pequenas, ter um objeto de transição, como um bichinho de pelúcia ou manta, ajuda a criar segurança no momento de dormir.

Exercícios físicos regulares contribuem para o sono reparador, mas atividades vigorosas devem ser evitadas nas duas horas que antecedem o horário de deitar. Alimentação leve à noite também facilita o descanso. Refeições pesadas próximas ao sono podem causar desconforto e atrapalhar o adormecimento. Evitar bebidas com cafeína, especialmente para adolescentes, é outra medida importante que muitas vezes passa despercebida pelas famílias.


Telas e tecnologia: o inimigo invisível do sono

A recomendação da American Academy of Pediatrics é clara: todas as telas devem ser desligadas pelo menos 60 minutos antes de dormir. Televisores, computadores, tablets e celulares emitem luz azul que interfere na produção de melatonina, atrasando o início do sono. Além disso, conteúdos estimulantes mantêm o cérebro ativo justamente quando deveria estar relaxando.

Manter dispositivos eletrônicos fora dos quartos é medida simples e eficaz. O quarto precisa ser associado ao descanso, não ao entretenimento. Crianças e adolescentes que usam telas antes de dormir demoram mais para adormecer, têm sono mais fragmentado e acordam menos descansados, mesmo quando passam o número correto de horas na cama.

Problemas persistentes de sono merecem atenção médica. Roncos altos, respiração irregular, pesadelos frequentes e sonambulismo podem indicar distúrbios que exigem tratamento específico. Consultar um pediatra ou especialista em sono é fundamental quando esses sinais aparecem. Quanto mais cedo o problema for identificado, maiores as chances de resolução sem prejuízos ao desenvolvimento.

Para saber mais sobre sono, visite https://drauziovarella.uol.com.br/pediatria/como-o-sono-impacta-o-desenvolvimento-infantil/ e https://institutodosono.com/artigos-noticias/o-papel-vital-do-sono-para-o-funcionamento-do-organismo/